segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

alberto caeiro poema XXIX

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dito por miguel.luaz

monsieur jérôme não sai de casa

monsieur jérôme não sai de casa,
despoja as paredes dos quadros para não raptarem as sombras,
brancura enevoada da alma sonâmbula
envolto no robe adormece os lábios,
dizia sossegando-se « são fragrância aquosas... »
falava do mofo do pó da sua alergia anafiláctica,
contenção espirro o gato salta de cima do colo.
uma chuva intensa sangrou a pupila.
monsieur jérôme não sai de casa,
suicidou-se pela madrugada escurecida
a bala ficou alojada no cérebro
onde ocorreu a sua última imagem
- quis ser depois, não agora

entregou seus poemas ao fogo por prudência.

miguel.luaz


terça-feira, 11 de dezembro de 2012


é preciso repensar a nossa vida


"É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo.
Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo."

Al Berto



domingo, 9 de dezembro de 2012

(excerto)
Cena do Ódio - Foi escrito por Almada Negreiros durante os três dias e as três noites que durou a revolução de 14 de Maio de 1915 - A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus avatares.
(...)

Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho-Marítimo da Índia
e as duas Grandes Américas,
e que levaste a chatice a estas terras
e que trouxeste de lá  mais Chatos pr’aqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...

(...)

Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres

(...)

Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!

(...)

Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele pra não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu' inda agora começaste!

(...)

Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco
que ficamos sempre a meio-caminho do Desejo?



(excerto)
(...)

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência! 
Vão para o diabo sem mim, 
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! 
Para que havemos de ir juntos?

(...)

Álvaro de Campos, in Lisbon Revisited, l923