quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

De Si(lên)cio dos Poetas

                     PARKEHARRISON, ROBERT AND SHANA

A crueldade reside ainda, e talvez sobretudo, no recusar-se a servir de objecto de prazer, de conciliação com a realidade. Ê assim que este tipo de arte esteticamente emancipada (acima de tudo esta chamada “poesia moderna) não funciona como representação <clara e pouco usual> da realidade, nem como hipóstase de um mundo imaginado ou como ersatz para frustração existencial, nem como mito: funciona como recusa de colaborar com a totalidade na sua lenta mas constante destruição do indivíduo e da sua livre e autónoma consciência.


Alberto Pimenta

porco trágico I


                                        PARKEHARRISON, ROBERT AND SHANA

conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.
a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito
de si
e pouco ou nada dos outros.
o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.

Alberto Pimenta

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Enquanto o papa não chega

                            PARKEHARRISON, ROBERT AND SHANA


Enquanto o papa não chega
Todos  dão a sua achega*

POR  EXEMPLO:
As autoridades convencem com os dentes.
Os deputados erguem as nádegas
para lhes serem metidas moedas na ranhura
Os investidores apostam na sementeira
de guarda-republicanos.
Os magistrados justificam o uso
da força com a força do uso.
Os militares apoiam a democracia em
geral e o cão-polícia em particular. 
Os tecnocratas correm o fecho-éclair
para fazer luz sobre o assunto. 
Os psiquiatras metem o dedo no olho do
cliente para lhe aprofundar os desvios. 
Os mestres ensinam os cães particulares
a defecar nos passeios públicos. 
Os escritores erguem a voz acima de todas para
dizer que todas as vozes se devem fazer ouvir.
Os funcionários públicos zelam por que tudo
o que não é proibido seja obrigatório.
Os sacerdotes encaminham a alma
para o sétimo céu.
Os internados no manicómio recebem
coleiras novas com o número fiscal.
Os jornalistas dão peidos que abalam a
qualidade de vida da cidade.
O povo digere tudo porque tem
dentes até ao cu.
Os polícias de choque referem-se
às conquistas de abril.
Os anjos da guarda interceptam os
pacotes com as bombas e explodem.

A visita do papa, Alberto Pimenta


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Do amor

                            Flor Garduño
“A única função do amor é a de ajudar-nos a suportar essas tardes dominicais, cruéis e incomensuráveis, que nos ferem para o resto da semana e para toda a eternidade.”

Emil Cioran

É o louco que existe em nós quem nos obriga à aventura

                                 PARKEHARRISON, ROBERT AND SHANA
“É o louco que existe em nós quem nos obriga à aventura. Se nos abandona, estamos perdidos: tudo depende dele, inclusive nossa vida vegetativa; é ele quem nos convida a respirar, quem nos obriga a tal, e é também ele quem empurra o sangue por nossas veias. Se ele se retirasse, ficaríamos sós! Não se pode ser normal e vivo ao mesmo tempo.”
Emil Cioran

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA


                             PARKEHARRISON, ROBERT AND SHANA, ano de 1968/64  

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.
Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.
Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

Herberto Helder