quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O amor lança fora o medo
















Photo: Toshiko Okanoue


"O amor lança fora o medo; mas,

inversamente, o medo lança fora o amor.

E não só o amor. O medo também expulsa a

inteligência, expulsa a bondade, expulsa 

todo o pensamento de beleza e verdade."


Aldous Huxley



terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

elegia múltipla VI




























The Orange Pencil is a canvas print designed and produced by Mineheart

design by https://mineheart.com/

São claras as crianças como candeias sem vento,

seu coração quebra o mundo cegamente.

E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,

pelo terror dos dias, quando

em sua alma os parques são maiores e as águas sujas

param junto à eternidade.

As crianças criam. São esses os espaços

onde nascem as suas árvores.


Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,

as crianças esmigalham-se.

Seu sangue evoca

a tristeza, tristeza, a tristeza

primordial.

— Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram

pelos séculos

entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes

e o olhar infinito de quem não possui alma.


Seu grito remonta ao verão. Inspira-as

a velocidade da terra.

As crianças enlouquecem em coisas de poesia.

Escutai um instante como ficam presas

no alto desse grito, como a eternidade as acolhe

enquanto gritam e gritam.


— É-lhes dado o pequeno tempo de um sono

de onde saem

assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.

Dali a vida de um poema tira

por um lado apaixonadamente; por outro,

purificação.

Nelas se festeja a imensidade

dos meses, a melancolia, a silenciosa

pureza do mundo.


Quem há-de pensar para as crianças, sem ter

espinhos na saliva e as vozes

desertas até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,

no seguimento da noite,

que as crianças aparecem com o horror

da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes

crianças vigiadoras —

cantando, pensando, dormindo loucamente.


Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas

que a vingança não afaste.

As crianças invasoras percorrem

os nomes — enchem de uma fria

loucura inteligente

as raízes e as folhas da garganta.

Aprendemos com elas os pecados do ar,

a iluminação, o mistério

da carne. Partem depois, sangrentas,

inomináveis. Partem de noite

noite — extremas e únicas.

— E nada mais somos do que o Poema onde as crianças

se distanciam loucamente.

                                                Loucamente.

herberto helder

poesia toda

a colher na boca

assírio & alvim


O amor lança fora o medo

Photo: Toshiko Okanoue "O amor lança fora o medo; mas, inversamente, o medo lança fora o amor. E não só o amor. O medo também expulsa a...